Vivências
intensas
despedaçadas
excessivas em
cotidiano
evocam-me carência
de interioridade, retiro, reclusão.
Exaurido emudeço.
Reflexivo,
torno-me palavra
e o sonho que a antecede.
Waldir Pedrosa Amorim
Vivências
intensas
despedaçadas
excessivas em
cotidiano
evocam-me carência
de interioridade, retiro, reclusão.
Exaurido emudeço.
Reflexivo,
torno-me palavra
e o sonho que a antecede.
Waldir Pedrosa Amorim
Não são teus olhos
mel, amêndoas sedutoras.
Teu corpo
que veste.
Teu sexo
que sotranca.
São as fímbrias
da convivência
atando esmeros.
Waldir Pedrosa Amorim
Eu sei
era noite de lua
um céu de verão
andava repleto de estrelas
o vento morno, acolhedor,
tangia a pele em carícias.
O Dezembro,
afeito ao congraçamento
entre as pessoas, prosseguia
mesmo para aquelas esquecidas
de tomar goles da afeição
às gentes de outras tribos.
Eu sei
do sabor de família
invasor do meu peito
exacerbando a melancolia
nos dezembros,
onde nunca vi os desconhecidos,
os humildes,
tratados verdadeiramente por irmãos.
Eu sei
da cidade iluminada,
da árvore de natal, da ceia, do champanhe,
do alvoroço das ruas, das mensagens
e das crianças maltrapilhas
soltas nas campinas de asfalto quente
e noites frias
mendigando espórtulas
nos semáforos.
Sei do formigueiro humano,
dos casebres que não vejo,
nem sinto o odor de urina,
da inhaca das roupas puídas,
da coçadura das lêndeas e piolhos,
do vácuo do estômago
e do desejo, da cobiça
saltando das vitrines submersas.
Eu sei
não se esmaecerá em mim,
nem cirurgicamente, nem com entorpecentes,
a dor desse sentir,
detonadora
dos ideais de modificar
a dura realidade humana;
bem conheço o peso
dos ideais sobre mim
da longeva sensibilidade
aprendida e, burilada
pelo cinzel das horas
que cedo me rasgaram
a inocência.
Deste dezembro em chamas,
deste dezembro em verde de esperança,
ganhei mais uma netinha,
e eis que me invade a alma,
Isabela,
no vigésimo primeiro dia,
num doce dezembro
que já se fizera particular,
desde o abril de Bia, no ano passado.
Há um ano e oito meses
se me estabeleceu
uma nova infância,
no dom do avô sensível,
agora redobrado.
Amadas, acolhidas
por Paulo, meu filho e Juliana sua mulher, há pouco,
a recém-nata e doce, Bela;
por Pedro, meu filho e Deanny sua mulher, há mais de um ano,
a saltitante e meiga Bia.
E assim, bem sei,
tivesse eu de morrer agora
e, sei que tão cedo morro,
sentiria a falta de não vislumbrar o dia,
do renascimento dito Natal,
por onde todas as crianças,
usufruíssem a humana prerrogativa
feita costume comezinho
do amor de Bia e de Bela.
Waldir Pedrosa, 24 de dezembro de 2010.
Os sóis não lhe ultrapassam
[menino de cento e dois anos]
você se ombreou com o tempo,
sua palavra, sua dignidade,
amor às gentes,
traços do eterno
sempre foi rega,
onde o chão esturricou.
Waldir Pedrosa Amorim
A dor interior
transborda,
desmente
a farsa competente;
única eleição:
conformar a lágrima
em pássaro
compositor.
Waldir Pedrosa Amorim
Vou
pela estrada
conduzindo-me ao Recife
na intimidade de quem palmilha
devassados caminhos.
A topografia mudou;
nos últimos anos,
constroem uma estrada
e transferem as montanhas.
O pó do barro rodopia
atiçado pelo vento;
o barro em pó
preenche côncavos,
regatos, depressões,
desnivelamentos.
As barreiras
dia após dia,
sofrem a erosão das máquinas
sendo enviadas nas caçambas,
que as vertem em outro terreno
distante.
Quantos milhares de anos
as carrearia o vento
e a chuva
a destino semelhante. Talvez nunca.
Nunca de uma vez.
Derrubaram os maiores Ipês
que já vira. Agora troncos.
Anualmente despetalavam
lentamente
atapetando a terra de
amarelo ouro.
Eram altos, viçosos e se postavam
na beira da estrada.
Inexorável
é jamais retornarem,
nem mais ninguém vê-los.
Waldir 2010
Eu morava,
a casa
das ingênuas alegrias
e tristezas.
Em tudo,
o sem medo
do infindável
e do nunca mais.
Nada,
possuía
o peso do falto,
o desejo do eterno.
As pessoas,
combinavam
com o mundo
e com a lentidão.
Enquanto eu,
tendo o assim viver
por regra,
não suspeitava
da colisão
da espécie humana;
nem,
que a parte fraca do tempo
fosse articulada;
nem me reparava
um hóspede precário.
Waldir Pedrosa Amorim